Energia e Criatividade

A promessa de um emprego na maior emissora de televisão do Brasil, a Globo, simplesmente selou o destino de Donner. Na verdade ele estava habituado ao design estático; mas nunca recuou ao deparar-se com um novo desafio.
Para criar a primeira animação do logotipo da Globo, Hans e seu amigo Rudi Bohm usaram a máquina Oxberry da emissora de televisão de Viena. Compreendendo o potencial da máquina, ao ver as animações que haviam feito, a Globo comprou uma igualzinha – que, naquela época, custava algo em torno de meio milhão de dólares. As criações subseqüentes de Hans Donner evidenciavam seu notável fluxo criativo e sua inédita resolução visual.
Fez inúmeras aberturas e spots para a Globo, que foram desde as fabulosas aberturas de Viva o Gordo e do Fantástico até as criações computadorizadas de Pedra sobre Pedra - a transformação de corpos humanos em elementos da natureza - e as Aberturas das Olimpíadas de 1992. Hans Donner sempre seguiu a evolução da computação gráfica e dos efeitos especiais. Ele até participou indiretamente da fundação da famosa empresa hollywoodiana PDI - Pacific Data Imaging -, uma companhia pioneira em imagens por computador, onde ele utilizou a tecnologia que posteriormente foi usada pela mesma companhia, para fazer os efeitos do filme O Exterminador, estrelado por outro austríaco: Arnold Schwarzenegger. Donner só lança mão de computadores, no entanto, quando é absolutamente necessário. Certa vez criou uma cena bizarra: pessoas afogando-se em lama durante um coquetel. Foi um trabalho magistral. Tão magistral que quase venceu uma das competições que há na televisão francesa entre seqüências de vídeo feitas sem computador; tão magistral que foi desclassificado porque o júri simplesmente não acreditou que a cena havia sido feita sem uso do computador - e definitivamente não foi!
Os críticos são unânimes em que só com superlativos se podem descrever as obras-primas de Donner, com sua fluidez de movimento, sua coreografia leve, quase um balé, seu senso de humor, seus pomposos efeitos especiais e, principalmente, é claro, o talento inigualável da sua vívida criatividade, a alta qualidade do seu design - e muito trabalho duro.
"Há vinte anos eu vivo um sonho que vai perdurar enquanto pessoas como Boni disserem: 'Vá em frente, Hans!' Encontrei liberdade de criação, apoio, recursos, equipamento, gente competentíssima, tudo aquilo de que preciso – e ainda sinto necessidade de fazer mais, cada vez mais, para trazer ao mundo este meu universo."
A apresentação criada em uma máquina Oxberry, em Viena, fascinou o pessoal da TV Globo.
A abertura do Fantástico: uma combinação magistral de bailarinos transferidos para diversas cenas de fundo. "Não tenho um computador no meu escritório da Globo. Na verdade, não trabalho em computador. Fico mais feliz trabalhando com gente do que com máquinas. Não sento diante da máquina para criar; faço meus desenhos em qualquer lugar. O logotipo da Globo, por exemplo, eu fiz num guardanapo, a bordo de um avião. O que gosto, na relação com o computador, é dos recursos de multimídia, que permitem todo tipo de efeito. Com a computação gráfica, realizamos o sonho de ver nossas criações em 3 dimensões. Minha equipe e eu preferimos utilizar outros recursos, principalmente a improvisação e a engenhosidade."

Há quem ache difícil de acreditar.
Dífícil acreditar que esta cena não tenha sido produzida em computador: o retrato de Tony Ramos formado por maquetes de prédios - pelo incrível número de 2800 maquetes de prédios feitas a mão. [video]
A cena em que um grupo se afoga em lama: só não ganhou o primeiro lugar numa competição da televisão francesa porque o júri não se convenceu de que não tinha sido feita em computador.

"Se produzir um alagamento de lama já é algo difícil de fazer, imagine um que invade uma festa até engoli-la completamente!
É aí que entra minha equipe..."
"Não se preocupem!" disse Capy Ramazzina, ansioso.
"Basta filmarmos a cena de trás para a frente. Em vez de inundarmos a festa de lama, nós colocamos todo mundo numa gaiola grande, transformada em salão, com paredes de cenário e uma grade de ferro como chão, para que a lama possa passar para dentro."
"Essa coisa toda, pesando em torno de oito toneladas, ao todo, foi suspensa por um enorme guindaste, que lentamente abaixava a gaiola, fazendo-a afundar aos poucos numa piscina cheia de lama artificial."
Uma das cenas em que um corpo de mulher se transforma em elemento da natureza.
Uma experiência artística impressionante:
cenas de amor animadas,
texturizadas ao estilo Gustav Klimt.
A abertura do fantástico, em que Hans fatiava as pirâmides, provocou inesperadas reações do público..."

"A história da abertura não acaba aí. Explicaram-me, depois, que ninguém pode brincar com figuras milenares como as pirâmides sem sofrer sérias conseqüências. Na abertura, eu fatiava as pirâmides, uma por uma, e misturava-as todas. Apareceram notas na imprensa sobre aquela abertura muito tempo antes de ela ir ao ar. O resultado disso foi que eu recebi inúmeras cartas advertindo-me para não fazer aquilo. Mais tarde disseram-me que a morte tinha passado por mim. O que me salvara fora eu ter usado muita luz e todas as cores do arco-íris; se não fosse por isso, eu teria sido eliminado pela natureza."